[+Leitor] As barreiras dos videogames

por Mauri Link*

Cada vez mais o mundo tem tido um contato mais próximo com os videogames. Aquele aparelho que antes ficava escondido no quarto cada vez tem mais a sua presença assegurada na sala, junto com a televisão, o DVD, o home-teather etc. E isso está atraindo novos olhares a essa incrível forma de entretenimento eletrônico. O que antes era um equipamento desconhecido, agora é notado, e o mais importante: experimentado.

Antigamente, um adulto só tinha certo contato com o videogame na hora da compra ou de levá-lo até uma assistência técnica. Jogar? Sem chance. Afinal, além de ser “complicado”, videogame era algo “de criança”, não? Afinal, jogar videogame é algo divertido, uma gostosa brincadeira, e adultos não podem “perder tempo” com brinquedos.

Mas agora as crianças de antigamente cresceram e são as atuais donas da sala, e estão mostrando aos velhos pais que o videogame tinha tanto direito de estar na sala quanto aquele bizarro enfeite feito por aquela tia metida à artista.

E nos dias atuais não é mais estranho ver videogames devidamente instalados em lugar de destaque na sala, e com isso diversas pessoas finalmente têm experimentado uma jogatina pela primeira vez. Eu sou um exemplo disso: quando era criança meu Atari ficava no meu quarto, ligado na televisão velha da casa (já que meus pais também eram daqueles que achavam que videogame estragava a televisão); atualmente, meus consoles ficam no rack da sala do meu apartamento. Assim, todas as pessoas que me visitam acabam tendo um contato com um videogame, e algumas confessaram que foi a primeira vez que tiveram esse contato.

Isso acontece hoje de maneira freqüente e cada vez em maior escala, e acredito que é um ponto de atenção para a indústria de jogos, pois diferentemente dos filmes, os “assuntos” abordados pelos games são muito limitados para acolher tantas pessoas de gostos e idades diferentes.

Realmente não adianta o videogame receber atenção desse novo público se ele não puder dispor de um conteúdo mais abrangente e que mantenha o interesse por jogar. Mas aí você me pergunta: não é injusto comparar o videogame com cinema, que tem mais de cem anos nas costas, com o videogame, que ainda é uma mídia nova e pouco explorada?

Pode até ser injusto, mas o público não vai se importar tanto com isso na hora de escolher com qual mídia vai querer se divertir. Temos pessoas que finalmente resolvem dar uma chance para os games, para logo se decepcionarem por não encontrarem um conteúdo que possa manter esse um mínimo de interesse.

Por isso acho que os games podem (e devem) alcançar novos públicos e precisam para isso de temas inovadores e diferenciados daqueles que temos hoje, e temos aí um ponto importante: o que um game pode oferecer para uma pessoa idosa? Para uma dona de casa? Para um deficiente? Para um estudante de música? Um guarda de trânsito? Essas pessoas podem chegar até uma locadora de filmes e facilmente encontrar pelo menos algum título que lhes agradem. Mas e se forem até uma locadora de games?

Alguns anos atrás eu trabalhava em uma loja/locadora de games. Tínhamos cabines onde se podia pagar para jogar por hora. Um dos nossos clientes sempre jogava Cruis’n World. Detalhe: ele sempre escolhia o ônibus e parava o veículo em várias esquinas, e depois de um tempinho repetia essa operação, até que o timer do jogo zerava e ele levava um Game Over. Fiquei intrigado com a situação e um dia perguntei por que ele ficava parando o ônibus toda hora nas esquinas ao invés de acelerar para chegar em primeiro lugar, que era o objetivo do jogo que ele alugava.

Ele disse que era motorista de ônibus e parava nos “pontos” para “pegar os passageiros”, e que jogava Cruis n’ World por que era o único jogo que conhecia no qual se podia dirigir um ônibus.

Ele não se importava com orcs, aventureiras malhadas ou naves cruzando o espaço e outros personagens comuns vistos em videogames, tudo o que ele queria era ser motorista em um jogo. Depois de um tempo, cansou de ficar frustrado e nunca mais veio jogar na loja.

Assim como ele, nem todas as pessoas gostam de controlar algo fantasioso como a maioria dos protagonistas de jogos, e preferem algo que se assemelhem a si próprias ou à sua realidade, o que explica o grande sucesso que games que fogem do convencional, a exemplo de The Sims, simuladores como Second Life, e mais remotamente, até mesmo jogos mais próximos do tradicional, mas oferecem uma maior personalização do personagem e da experiência que se obtêm ao jogar, como World of Warcraft.

Pensando nisso, fica mais forte a idéia de que os games precisam abrir um maior leque de opções de temática e de personalização da experiência de jogo, não somente por uma questão de mercado, mas também para que seja recebido por mais pessoas como uma forma de entretenimento acessível. Esse cenário parece incomodar os jogadores experientes, que muitas vezes agem como se fossem um grupo de crianças que não aceitam um novo participante nesse grupo, com medo das novidades e novos tipos de interações que podem surgir com a convivência com esse novo integrante. Aguardam com devoção extrema a 27º versão de um game consagrado, e pensam duas vezes antes de dar uma chance a um jogo novo ou de temática diferente.

Com o resultado que o Wii e o Nintendo DS alcançam dentro do mercado, pudemos notar que esse fato toma maiores proporções, chegando ao ponto da comunidade gamer ser dividida entre ”gamers hardcore” e ”gamers casuais”, com o primeiro grupo sendo formado por gamers que possuem bastante familiaridade com games enquanto o segundo é um grupo novo que está começando a jogar agora.

É um cenário que beira quase o de preconceito? Infelizmente sim.  No Japão a situação é um pouco melhor, e é de lá que vem a maioria dos títulos inovadores e com temáticas diferentes, como jogos em que se podem operar trens, que ensinam boas maneiras e até mesmo a exercitar a musculatura do rosto, e isso explica o motivo do videogame ser bem mais aceito na cultura japonesa o que no reto do mundo, já que a tendência promovida pela indústria japonesa é de que os jogos devem se adaptar às pessoas, e não ao contrário.

O fato dos “gamers hardcore” depreciarem a chamada “onda casual” que invadiu com maior força em todo o mundo é realmente lamentável, pois o maior inimigo para quebrar as barreiras dos games pode acabar sendo os próprios jogadores.

Nesse momento, o respeito pelas pessoas e seus gostos pessoais é importante para quebrarmos as barreiras dos games. Se você é um veterano dos games, tenha paciência e procure ajudar quem está começando, pois amanhã ele pode se tornar um gamer dedicado tanto quanto você e vocês podem juntos partilhar de experiências através do videogame. Com essas experiências, eu garanto: seu “nível” só tende a subir.

*Mauri Link é leitor e participante ativo do GoLuck, e enviou seu texto através do goluckast@gmail.com. Escreva você também seu texto para a coluna +Leitor.

Anúncios

4 comentários sobre “[+Leitor] As barreiras dos videogames

  1. Opinião do editor: Bem, como o tópico ficou grande, vou aproveitar para comentar aqui minhas impressões sobre o texto do amigo Mauri.

    Bem, o texto resumiu mto bem a mudança de alguns aspectos dos videogames nos ultimos anos. Palmas pela passagem onde diz que a comparação com o cinema pode ser injusta pela diferebça de experiencia de campo. Concordo. E por isso que essa industria deve ser admirada por todos.

    Bom, nao concordo muito no ponto em que devemos ter paciencia com os casuais, pq que um dia eles se tornarão “não-casuais”. Não acho. O perfil do casual é diferente do pergil do jogador que começa a jogar videogame. Pode até ser que ele venha a se tornar um harcore (ou quase isso), mas acho que os perfis são diferentes…

    No geral o texto ficou muito legal e abre uma boa discussão sobre o futuro da industria como um todo.

  2. Primeiramente queria agradecer pelo belo texto do Sr.Mauri e dizer que ele já está concorrendo.. Ha haiiiii. Todos sabem se você não ganha, quem ganha é a cartaammm!

    Agora falando sério, ou quase, os games apesar de serem mais novos que o cinema, estão ensinando muito aos vovôs. Principalmente em idéias novas que às vezes não são bem aproveitadas, mas são idéias novas. Por outro lado o games aprendem também com a sétima arte. De onde será que saiu os 40 minutos de vídeo do Metal Gear Solid 4 com “carlinha” (ops desculpe!), com carinha de filme? Ou então a câmera do famoso Gears of War? Em que filme inspirou o jogo na parte dos temerosos “Morceguinhos”? Será que não foi um filme do Vin Diesel, um tal de Riddick? Poderia fazer zilhões de perguntas.

    Enfim, tudo é uma troca, um complementa o outro.

    Meus pais tinham essa visão preconceituosa dos games, tanto que isso mudou eu muito. Minha mãe por exemplo, recentemente adquiriu um Wii e agora já pensa no Wii Fit. Casual? Sim! Mas existe os dois lados da moeda. Um bom, por aceitar de alguma forma o VG em seu coração. Já o segundo não é tão bom assim. É sobre “aqueles” jogadores de um jogo só, sabe? Confesso que essa segunda opção é o que me deixa mais “P” da vida e todos que acompanham minhas escritas sabem de que jogo estou falando.

    Mas o importante é essa quebra de barreiras e quem sabe um dia, quem sabe um ano e nessa vida ainda, podermos todos juntos e de mãos dadas cantarmos; You Are The World, sem o Michael ok?

    Ha haiiiii….

  3. Nesse lance de pais, acho que sou uma exceção, afinal foi meu pai me introduziu no mundo dos games. E virei fã de Zelda por vê-lo jogar, lembro bem como eu ficava admirando ele jogando o do SNES e quando ele deixava eu pegar o controle eu morria de medo de sair da vila porque os soldadinhos me atacavam… rsrsrs

    Cresci ganhando os consoles sempre que um era lançado, lá em casa vivia cheio de amigos e o que meu pai adorava, sempre sentava lá na sala para ver a gente jogando.
    E como era criança e sempre tive videogames não entendia muito o por quê das outras crianças não poderem ter um também, da repressão de seus pais quanto a isso.

    É tão bom acompanhar a evolução dos videgames e vê-los conquistando seu espaço, pessoas que antes falavam “você é doida, só sabe jogar, esse negócio é chato demais, tem graça nenhuma nisso!”, hoje já se divertem quando eu lhe apresento algum jogo. E assim como os videogames sempre foram apetrechos essenciais na minha sala, espero que se tornem para muitos também.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s