[+Leitor] Fazendo Sonhos

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por Fernando Mucioli*

Sou um tipo de ovelha negra na minha família. Não porque, em um vasto mar de médicos, decidi lançar meu pequeno bote conta as ondas do Jornalismo. Nem por ter escolhido a disciplina e a austeridade dos japoneses à bagunça dos italianos, dominantes à esquerda e à direita. Sempre tive sonhos estranhos. Sempre tive aspirações diferentes.

Enquanto a grande maioria dos meus colegas sonhava – como todo bom garoto – se sagrar em gramados, quadros e piscinas, eu desenvolvi um fascínio incontrolável pelo universo policial. Não pela simples adrenalina de perseguir e trocar tiros com malfeitores, mas pela magia, pelo mistério de se deparar com um caso misterioso, juntar as provas, ligar os pontos e descobrir se foi mesmo o Coronel Mostarda com o Candelabro na Sala de Estar. Mais tarde, isso desenvolveu-se em uma insaciável sede pelas leis. Unir a sagacidade do detetive de antes à atuações impecáveis num tribunal para defender os mais fracos. Um menino de dez anos querendo ser advogado. Onde já se viu?

E foi então que, lá pelos idos de 2004, frequentando um fórum de games pequeno, mas com discussões de altíssima qualidade, que me deparei com um tal de Gyakuten Saiban. Enquanto baixava a rom do jogo – feio de admitir, mas é verdade – perdi a conta de quantas vezes joguei a brevíssima demo do site oficial. Por Deus, o que era aquilo? Os três jogos da série provaram minha culpa e me condenaram a sessões longuíssimas na frente do computador. Sonhos, devaneios, personagens que despertam amor e ódio, aquela prova que decide tudo, aquela reviravolta. Quem jogou um Ace Attorney sabe exatamente do que estou falando.

Bato meu martelo de madeira e digo que os sonhos são o motor da vida, ponto final. É é por isso, portanto, que algumas relações que temos com alguns games em específico são especiais – no amplo sentido da palavra. Há jogos que nos impressionam pelo detalhismo estúpido com que gotas de sangue e colunas vertebrais se contorcem na tela, ou como cada parafuso de um carro se contorce perfeitamente durante uma batida. Há aqueles que deixam qualquer um vidrado na tela, mãos segurando controles como garras, para saber o que vai acontecer. Há os simplesmente divertidos, pra dar umas boas risadas e contar vantagem em cima dos seus amigos que não passaram horas treinando aquele combo ou seqüência de notas. Mas presenciar os seus sonhos mais insanos se realizando é, como diz o ditado, outra história.

Ligar Gyakuten Saiban era – e ainda é – como ver todos os meus sonhos de infância realizados, tudo sob medida. Não é uma série perfeita, definitivamente não é. Mas é a minha série. É o meu sonho ali. E eu amo cada instante. E é isso que torna um game, como dizem, épico para esse que vos fala. Não existe gráfico, não existe armadura de fuzileiro espacial, não existe último chefe com dezoito asas de anjo lutando ao som de Carmina Burana. Quando um jogo te toca naquilo que você é, naquilo que você sempre quis ser e fazer, aí não tem jeito. E a sensação é ímpar. Okami, o tão homenageado – e tão pouco vendido – jogo da Capcom faz algo assim, mas de um outro jeito: não é o enredo do sonho, é a estética. Correr com Amaterasu e Issun pelos campos de Nakatsukuni (Nippon) exige beliscões periódicos.

“Santa redundância, Capitão Óbvio!” diz você, leitor possivelmente melhor conceituado, mais vivido e quiçá bem informado do que esse humilde ex-futuro praticante da lei. “Talvez”, retruco-lhe, “mas não faz mal relembrar”. Tanto para nós, jornalistas com nossos infalíveis olhos críticos quanto para eles, os Willy Wonkas hi-tech que, em suas fábricas mágicas cheias de Oompa-Loompas programadores, designers e músicos, trabalham e cantam em coral e tom perfeito para que essa indústria vital continue rodando. Toquem-nos, produtores. Façam com que lembremos da nossa infância, do tempo em que qualquer coisa parecia possível. Nos games, elas SÃO possíveis.

Já chamaram a cinematográfica Hollywood de “fábrica dos sonhos”. Não discordo. Mas fico feliz em saber que, mais do que poder ver um sonho na tela, eu posso vivê-lo com o controle na mão. E pelo menos nessa sensação eu sei que não estou sozinho.,

*Fernando Mucioli é estudante de jornalismo e editor do site GameTV. Ele também acredita que queijo quente é melhor no pão de forma

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5 comentários sobre “[+Leitor] Fazendo Sonhos

  1. Belas palavras!!!
    😀

    Mas por favor produtores, não me toquem! huauhahuahu E se forem tocar alguém, que não seja em público please!
    😀

    Acho que é muito importante sonhar, ler um livro permite à vc abstrair o mundo o qual vc está lendo, ver um filme permite que vc se leve pela emoção, mas o mundo já está lá pronto… Você apenas compartilha da emoção com o protagonista, mas contudo uma música no fundo ajuda à criar o clima! Em jogo… Vc está com TUDO De um filme, mas com um diferencial… A interação! Nada acontece se vc ficar parado! E vc pode explorar detalhes que talvez um protagonista de filme não teria tempo de fazer, e muitas vezes se é recompensado com isso (ítens e bônus) hehehehe

    Games rulez!

  2. O texto do Fernando me fez lembrar de alguns jogos que instantaneamente me remetem a minha infância. Titulos que se eu fosse jogar pela primeira vez hoje, talvez não ficasse tão encantado.

    Quando escuto aquela musiquinha de abertura do DK1…Nossa…Nostalgia. Ou quando escuto aquele barulho dos arcades com aquele som abafado de “aduken”, me lembro que ficava espiando os outros jogarem fliperama quando eu ia na casa do meu pai. Minha mãe jamais poderia saber, ela odiava fliperama.

    Sonic me lembra a minha vontade de querer ir para a casa de uma tia minha só para poder jogar o joguinho do “bichinho azul”. Ahh… E como eu adorava quando minha mãe falava “Vamos na casa da sua tia Angelina”.

    Acho que os games tem um enorme diferencial do cinema: a interatividade. E por mais “Capitão Óbvio” que isso seja, é o fator determinante para me fazer optar pelos jogos, onde além de poder mergulhar no mundo criado pelos produtores, ainda posso trilhar meu proprio caminho…

    Ótimo texto, Fernando! Parabéns!

  3. Acrescentando… Um livro não se pode ler a 2, pelo menos eu não consigo huahahua ver um filme a 2 é legal mas cada um têm sua sensação da coisa, agora jogar… Acompanhado é muito legal! Pois um pode compensar o outro com suas habilidades e claro, atenção!
    😀

    Sempre os games uahuauha Vida longa aos games!

  4. Hehe, já eu curtia pacas ir no fliperama ver a galera jogando Tartarugas Ninjas, tanto que faço a minha confissão de ser fã de Tartarugas Ninjas 2 e achá-lo i título supremo de Nes. :p

    Parabéns, Fernando. Ah, quebrar regras rlz.

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