A janela

janela

Meus pais se separaram quando eu tinha 7 anos. Todo filho de pais divorciados sabe o que isso significa: ter duas casas.

Por muito anos vivi em dois universos completamente diferentes. Durante a semana morava com minha mãe em um bairro de classe média, e aos finais de semana visitava meu pai em o que, hoje, nós educadamente chamamos de comunidade.

Essa não é uma das histórias de cresci na favela, aprendi nas ruas. Até porque o ambiente sempre me trouxe estranhamento. Tudo era diferente do que eu estava acostumado; as pessoas, as interações, as rotinas, as preocupações, as prioridades. Uma coisa, no entanto, era a intersecção que conectava aquele mundo: videogames.

Meu pai me deu um PlayStation quando eu não tinha por volta de 10 anos. Em respeito ao autor do presente, decidi deixar o videogame na casa dele. Imagine uma criança ansiosa que precisava esperava a semana inteira para jogar. O Super Nintendo da casa da minha mãe não conseguia reproduzir os gráficos incríveis que eu via nas revistas de videogames que comprava com a mesada de R$10.

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Era quase um ritual; acordava 7 da manhã, ia para o ponto de ônibus e em 20 minutos estava ao pé do morro. Subia a ladeira de cimento na maior velocidade que minhas pernas aguentavam. Um garoto branco, de tênis, subindo o morro todo sábado de manhã nunca passou desapercebido. Ainda mais quando carregava um porta CD repleto de aquisições frescas do camelódromo do centro da cidade.

Meu pai morava com minha falecida vó paterna, em uma casa de alvenaria com piso vermelhão, uma tendência em um lugar onde azulejo era objeto de ostentação. Como meu pai sempre trabalhou de turnos – muitas vezes noturnos – quando eu chegava ele estava dormindo ou se preparando para sair. Batia na janela de madeira na lateral da casa. Três toques e esperava. O silêncio era quebrado pela movimentação dele até a porta. Abria-se o portal para o momento mais esperado da semana. Mas não antes de outro ritual.

Certa vez, talvez até pelo cansaço da jornada noturna, meu pai reclamou quando liguei o videogame minutos depois que tinha chegado. O PlayStation ficava no quarto dele – um puxadinho da antiga sala da minha vó. “Você vem aqui pra me ver ou só pra jogar?”, ele disse irritado antes de voltar a dormir.

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Hoje, pai, entendo a reclamação. Por isso um dia talvez compreenda se o Benjamin (meu filho) faça como eu e fique 30 minutos sentado em silêncio enquanto durmo esperando o tempo adequado para ligar o videogame.

Era o que eu fazia. Toda vez. Eram momentos de silêncio, olhando para o videogame, lembrando de todos os jogos que tinha visto nas revistas, abrindo silenciosamente o porta CD e imaginando quais jogaria primeiro.

Essa rotina só mudou quando, em uma das escaladas matinais de sábado, alguns garotos me abordaram. Era um grupo de quatro, alguns descalços, outros de chinelo de dedo. Camisas de vereador em cima do ombro. Não lembrava daqueles rostos, apesar de não serem tão desconhecidos.

– Ei, isso aí é fita (sic) de videogame? Você gosta de jogar é?
No momento, não tive nenhuma dúvida do que estava acontecendo. Abri o maior sorriso que conseguia dar e respondi:
– Eu adoro jogar!

Acabara de fazer algumas das amizades mais marcantes da minha infância.

Todas as crianças sabiam; quando a janela estava aberta, o videogame estava ligado.

O primeiro mito que se quebra ao conhecer bairros mais carentes é que as pessoas que vivem lá não têm lazer. Na verdade, eles vivem do lazer. Churrascos, festas, conversas na cadeira de plástico na porta de casa, futebol, tudo era motivo para celebrações. Entre as crianças o videogame era unânime. Nem todos podiam ter, é verdade, mas todos conheciam alguém que tinha. E foi assim que eu conheci o Thiago.

O Thiago morava umas cinco casas do meu pai. Assim como eu, andava sempre com seu porta CD embaixo do braço – jogos de um videogame que ele sequer tinha. Na ansiedade de ganhar o desejado presente de aniversário, ele já colecionava os jogos que também conhecia pelas revistas e indicações dos vendedores do camelô.

A identificação foi imediata.

Fiquei amigo do Thiago de tanto me irritar com o fato dele não querer emprestar nenhum jogo. “Eu quero ser o primeiro a jogar”, ele sempre dizia. Mesmo sem admitir, eu teria feito o mesmo.

Quando Thiago finalmente ganhou seu PlayStation, nos aproximamos ainda mais. A janela do quarto dele dava direto para a rua. Todas as crianças sabiam; quando a janela estava aberta, o videogame estava ligado.

Era um acontecimento; diversas crianças apoiadas do lado de fora da janela do Thiago. Eles se espremiam, revezavam o pequeno espaço para ver a mágica vindo da TV de tubo. Eu levava meu controle e garantia meu acesso VIP, sentado na cama debaixo do beliche do quarto com pouco mais de cinco metros quadrados.

O videogame foi meu passaporte para um mundo que eu não fazia parte

A plateia não só assistia, mas participava. No tradicional “quem perde passa o controle”, o curto fio do antecessor do DualShock se esticava até a janela. Não consigo calcular quantas horas passei ali, mas lembro bem dos olhares e sorrisos que o videogame proporcionou.

O momento mais marcante foi a missão para conseguir Metal Gear Solid, jogo que era um mito entre as crianças. Thiago disse que um conhecido já estava no segundo CD e poderia emprestar o primeiro.

– Ele mora longe? – perguntei ansioso.
– Logo ali – Thiago respondeu, já sabendo que eu não toparia a aventura se ele contasse a verdade. Afinal de contas, eu era o moleque branco de tênis que não morava ali.

Caminhamos por mais de 30 minutos. A alvenaria aos poucos foi dando lugar a madeira. As ruas viraram guetos, o asfalto se tornou terra e os sorrisos já não eram tão convidativos.

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A jornada para o empréstimo de Metal Gear Solid foi, para mim, tão marcante quanto o próprio jogo, que devoramos de uma forma sem igual. A plateia da janela opinava e vibrava a cada nova descoberta e avanço. Imagine o desafio de descobrir que era preciso ligar para Maryl sem internet nem a caixa oficial do jogo?

Convivi com os mesmos garotos do bairro por muitos anos, mesmo após meu PlayStation ter se mudado para a casa da minha mãe. O videogame foi meu passaporte para um mundo que eu não fazia parte, mesmo estando ali todos os finais de semana.

Não existiam diferenças quando estávamos, juntos, compartilhando o controle na janela do quarto do Thiago.

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3 comentários sobre “A janela

  1. ps. Infelizmente não tenho nenhum arquivo pessoal fotográfico dos locais citados no texto, por isso as fotografias usadas no artigo são de locais próximos no mesmo bairro. Com exceção da foto da janela; essa imagem talvez eu só consiga reproduzir na memória.

  2. Pingback: O sonho que nunca alcancei – GoLuck

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