O que nos uniu

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Eu odeio jogo!” Quem conhece minha mãe sabe como ela gosta de deixar isso claro. E a lista dela não tem restrições, vale tudo; baralho, par ou impar e, claro, videogames.

Nunca descobri o real motivo para a implicância – que as vezes suspeito que seja somente isso, uma implicância, ainda mais conhecendo minha genética. Quem me conhece também sabe o quanto eu sou implicante quando coloco alguma coisa na cabeça.

E algo que eu sempre tive na cabeça é minha paixão por videogames. Meu primeiro contato com eles foi quando o irmão mais novo da minha mãe, meu tio Ricardo, tinha um Atari 2600 – o qual ele passava mais tempo tentando conectar na TV do que jogando. Mas quando o cabo funcionava, eu podia ver e jogar River Raid, Enduro e Keystone Kapers – meu favorito, o jogo de polícia e ladrão. Meu tio costumava guardar as fitas do Atari em uma gaveta no quarto, a qual tenho lembranças de ser como um baú escondido em um labirinto. Me aventurava pelo guarda-roupa procurando o tesouro, mas nunca encontrara.

Por fazer parte de uma família que sempre se uniu em qualquer ocasião, frequentava muito a casa de tias e tios. Tinha uma, no entanto, que era minha favorita. Quando entrava ano Chevette da minha avó e escutava “estamos indo na casa da tia Angelina”, eu arregalava os olhos. Sabia que o passeio seria bom.

A Tia Angelina é irmã mais nova da minha avó e tem dois filhos na mesma idade que meu tio Ricardo. Na época, por serem crianças mais velhas, eles tinham acesso aos brinquedos que eu nunca tinha visto. E na casa da Tia Angelina, em um dos quartos, ficava guardado o motivo da minha ansiedade para a visita: o Mega Drive.

Acompanhava, hipnotizado, o personagem azul correndo pela tela. Na sala, a família conversava, comia. Eu ficava em pé ao lado da porta do quarto escuro olhando para a TV, na esperança de alguém perceber o que eu queria. E não era difícil. Meus primos sempre me deixaram jogar o Mega Drive, por isso sabia que lá era um destino certo para minha diversão favorita. Consequentemente, chorava toda vez que minha mãe dizia que o aniversário que estávamos indo não era na casa da Tia Angelina. Por que todos não podiam ser lá?!

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O meu primeiro videogame foi um Nintendinho, que ganhei da escola. Ou pelo menos foi isso que acreditei na época. Hoje, adulto, descobri que não há mágica. Os pais compravam os presentes que eram entregues no Natal. Por anos creditei meu primeiro videogame a um homem de barba branca, mas na verdade tinha sido presente da pessoa que não suportava jogos.

Minha mãe sempre tentou controlar meu tempo em frente ao videogame, por motivos óbvios. Eu poderia passar o dia inteiro ali. Para garantir minhas horas de jogo, no entanto, eu precisava de uma combinação de fatores importantes; notas acima de 8 em todas as disciplinas na escola e tirar o pó dos móveis nas faxinas de Sábado. Não tenho a menor dúvida que minha principal motivação para ter boas notas era o medo de perder o acesso ao videogame.

Mas eu nunca fui uma criança muito fácil. E aprendi a duras penas o quão difícil era ficar sem meu passatempo favorito. Certa vez, após algum episódio de desobediência do qual não me lembro –– mas possivelmente ligado com minha já presente implicância – minha mãe decretou: um mês sem videogame.

Dizem que carregamos poucas lembranças contínuas da infância, mas essa é a memória mais concreta que tenho.

O videogame, na época, era dividido com meu tio Ricardo, que morava na casa da frente com minha avó. Então minha mãe tinha uma crise para gerenciar: meu tio não estava de castigo e, logo, tinha acesso livre ao videogame. Quando ele vinha em casa para jogar, eu precisava sair. Era desesperadora a sensação de saber que o videogame estava ligado, a metros de mim, mas não podia jogar.

Coração mole que é, minha mãe abriu uma concessão no castigo e me deixava assistir – mas apenas da janela da sala, do lado de fora. E lá ficava eu, agarrado na grade, de olhar fixo no videogame.

Aprendi algo muito importante com esse castigo e, para desespero da minha mãe, não foi se comportar melhor. Daquele dia em diante eu não falava mais que videogame era minha atividade favorita. Dizia como gostava de andar de bicicleta, brincar com bonecos, ou qualquer outro passatempo. Quando, inevitavelmente, me comportava mal, o alvo do castigo não era mais o videogame.

Gênio.

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Eu precisava ser engenhoso para proteger meu privilégio de jogar o Super Nintendo, afinal de contas não foi fácil conquistá-lo. Minha família materna é toda Portuguesa, como você pode suspeitar pelo meu sobrenome. Com seis anos viajei com minha mãe para Portugal. Como toda responsável por um pequeno furacão, ela tentou encontrar uma forma de me manter sob controle. E propôs um acordo.

Toda vez que eu me comportasse bem, ganharia pontos. Quando fizesse algo que a contrariasse, perderia pontos. No final da viagem, dependendo da quantidade de pontos que eu tivesse, poderia escolher entre alguns prêmios – sendo o maior deles o desejado Super Nintendo.

Ironicamente, a pessoa que mais tinha aversão a jogos no mundo acabara de gamificar a viagem.

Como meu comportamento nunca foi exemplar, as chances de não garantir os pontos suficientes eram altíssimas. No meio da viagem já estava me conformando com uma recompensa mais baixa, festa com palhaços. Até uma intervenção divina.

Em um dos diversos passeios diários, nos levaram até uma igreja. Ao chegar, observei um senhor que retirou o chapéu antes de entrar. Eu estava de boné, copiei o gesto. No mesmo momento minha mãe viu o ato e, com um sorriso enorme, me recompensou com pontos positivos.

Naquele momento eu tive a certeza que o Super Nintendo já estava garantido; você imagina quantas igrejas nós visitamos até o final da viagem?! Não esqueci de usar boné um dia sequer.

Ironicamente, a pessoa que mais tinha aversão a jogos no mundo acabara de gamificar a viagem.

Por ser filho único e de uma geração intermediária na minha família, encontrei no videogame um parceiro para todas as tardes que passava sozinho. Minha mãe sempre trabalhou fora, nunca foi fácil ser mãe solo. O videogame, então, foi meu companheiro por muitos anos, mesmo com o desgosto dela.

Sempre soube que minha mãe não gostava que eu dedicasse meu tempo somente para os jogos. O que eu não sabia, na época, é o quanto ela reconhecia a importância que os videogames tinham pra mim.

Mesmo deixando clara sua aversão, minha mãe nunca foi contra nenhuma decisão que tomei envolvendo minha identificação com os jogos. Nem quando troquei um estágio em uma multinacional por uma aventura em São Paulo para escrever em revistas de joguinhos. Nem quando pedi demissão de um emprego cheio de estabilidade para abrir meu próprio negócio – sem mesmo conseguir garantir que poderia me ajudar caso desse errado.

Ela me levava na casa da Tia Angelina porque sabia que eu lá eu poderia jogar o videogame que ela ainda não podia comprar.

No Natal da escola, ela escolheu dar um videogame e não um autorama, opção que também tinha sido oferecida aos pais.

Ela me dava pontos extras na viagem porque queria me dar um Super Nintendo.

Ela tirava minha bicicleta nos castigos porque sabia que me deixava triste ficar sem o videogame.

Como em um plot twist digno de Game of Thrones, descobri que a paixão que sempre tive por videogames foi secretamente apoiada por ela.

Quanto amor é preciso para vencer sua implicância? Um amor como o da minha mãe.

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3 comentários sobre “O que nos uniu

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