O sonho que nunca alcancei

set1

Sempre tive facilidade para falar em público. Na escola era orador das turmas, apresentava os trabalhos e, claro, recebia inúmeras reclamações dos professores por falar demais. Me achava extrovertido – ou pelo menos aceitava a etiqueta que me davam.

Por muito tempo me dediquei ao ofício de aparecer na frente das câmeras. Em determinado momento, acreditei esse seria meu futuro profissional. No sonho mais distante, queria levar os jogos para a MTV. Por que não? Era a maior referência jovem em uma era onde a internet ainda engatinhava.

Como contei nesse outro texto, sempre tive dificuldade em admitir minhas fraquezas. E essa não é exatamente uma história de sucesso, mas sim como aprendi com um fracasso pessoal.

Enquanto estava convencido que aparecer na frente da câmera era minha principal virtude, ignorei tudo que acontecia em volta

Após cobrir a EGS 2005 pelo Santa Games, iniciei minha jornada com o microfone em mãos. As primeiras oportunidades, no entanto, não eram exatamente as que imaginava. Toda semana ia até uma loja gravar propaganda dos novos jogos e videogames, ao bom estilo shoptime. Repeti muito o discurso consoles destravados para rodar seus backups.

Fazer merchandising era distante do sonho de ser VJ, mas me ajudaram a criar mais intimidade com uma produção audiovisual. Até que veio o grande projeto que seria meu passaporte para o desejado objetivo. Ou assim acreditava.

Em novembro de 2006, junto com outros colaboradores do site Wii Brasil, criei o WiiTV – o primeiro programa de games no Brasil produzido do zero para a internet.

Sem falsa modéstia, o WiiTV era um projeto muito a frente do seu tempo. Um programa semanal produzido por uma equipe de entusiastas em um processo que emulava uma produção profissional.

Esse vídeo abaixo, publicado no episódio 4 da segunda temporada, mostra os bastidores da produção. É uma mistura de nostalgia e vergonha alheia, mas exemplifica exatamente como era produzir vídeos há 10 anos sem ter nenhum conhecimento ou equipamento apropriados.

Numa conversa recente com o Ivan “Soul Zonik” Nikolai, um dos responsáveis pelo Wii Brasil e também do WiiTV, ele me contou como enxergava o projeto. “Tinha orgulho do WiiTV pois era um campo praticamente inexplorado na internet. Atualmente você encontra milhares de YouTubers com proposta similar, mas há quase uma década isso era inexistente”.

O WiiTV teve 24 episódios publicados e alcançou uma audiência muito relevante. Mas, principalmente, foi meu cartão de visitas.

Na época, não tive dúvidas que alcançaria o sonho.

Incluía produção de vídeos em todo projeto que eu participava. Foi assim que consegui o emprego na Saga, escola de computação gráfica, após indicação do amigo Ricardo Farah. Foi na frente da câmera que convenci a Ubisoft Brasil a investir em produção de vídeos; hoje uma das principais iniciativas de sucesso da empresa no Brasil.

Mas alguma coisa não estava dando certo.

Por mais que eu achasse que apresentar era meu diferencial, minha carreira insistia em me afastar das câmeras.

O mais perto que passei da MTV foi em 2012, quando troquei e-mails com Ricardo Anderáos, na época Diretor de Mídias Digitais da emissora. O contato veio por meio da minha participação no Curso Abril de Jornalismo, no ano anterior. Na época, Anderáos demonstrou bastante interesse em projetos de games para o portal da MTV. Como costumava fazer, mostrei segurança e tentei convencê-lo que seria uma boa ideia investir em games. Tinha o projeto pronto, redigido em um documento no Word salvo como “games na mtv.doc“. Ofereci até mesmo vender cotas de patrocínio. Não tinha como dar errado. Mas deu.

Nunca tive uma epifania que deixasse claro o fracasso do meu plano original. Foi um desmame doloroso, que passou por algumas recaídas. Falhei em levar o projeto de games para a MTV – vendida tempos depois.

Enquanto estava convencido que aparecer na frente da câmera era minha principal virtude, ignorei tudo que acontecia em volta.

O WiiTV me ensinou a gerenciar projetos, lidar com equipe e a criar conteúdo para uma comunidade. As inúmeras entrevistas que gravei enquanto apresentei os programas na TV Saga me deram confiança no discurso, pensamento rápido e melhor desenvolvimento na linha de raciocínio. Convencer a Ubisoft a investir em vídeos, nada mais era, que uma evolução da minha capacidade de vender uma ideia.

Quando percebi, figurava do outro lado da câmera – algo que nunca planejei. Estava tão míope que, mesmo quando abri uma produtora de vídeos dentro da minha empresa, não enxergava que o sonho mudara.

Hoje, enxergo o que aprendi enquanto perseguia a antiga ambição. Reconheço como algumas decepções foram importante para que eu me motivasse a ter novos objetivos. Quero, por meio da Gomídiadar oportunidade para que outras pessoas possam ir atrás dos seus sonhos – e aprender com os inevitáveis fracassos no caminho até que esses sonhos mudem para algo melhor. Sempre melhor.

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