O primeiro encontro

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A viagem entre Cubatão e Santos levava aproximadamente 30 minutos, quase o tempo que eu esperava no ponto pelo ônibus intermunicipal. Era uma rotina que estava bem acostumado; durante toda minha adolescência fazia esse trajeto para ir até a escola e, aos finais de semana, para aproveitar o lazer que a cidade vizinha oferecia.

Aquele dia, no entanto, eu estava mais agitado que o normal. Logo após o almoço fiz o caminho até o ponto. Como o celular da época servia apenas para telefonar e ver as horas, o meu principal passatempo no ônibus era escutar as histórias contadas em alto e bom som pelos colegas passageiros, entrar em profundas reflexões sobre a vida ou, claro, jogar alguma coisa no meu Nintendo DS. Não saia de casa sem ele, quase um amuleto.

Essa viagem não foi assim. Eu estava inquieto, tirava o celular do bolso e encarava a tela do celular constantemente. Com certa dificuldade, tentava jogar alguma coisa no videogame portátil. Teria sido mais fácil se não estivesse com a mão direita imobilizada, resultado de uma fratura no dedo mindinho naquela que viria a se tornar minha última partida de futebol como goleiro. Mas não era a mão esquerda que me impedia de jogar, era a ansiedade.

mao quebrada

A chegada até o ponto de ônibus em Santos ainda reservava uma longa caminhada até o Gonzaga, bairro onde tudo acontecia. O Sol forte do meio da tarde me fez desacelerar o já usual passo apertado, que quase sempre me fazia sentir dores na coxa de tão exigente que era com a velocidade das passadas. Aquele dia não queria ser castigado pelo suor.

Quando avistei meu destino final do outro lado da Avenida Ana Costa, parei e puxei novamente o celular do bolso. Estava no horário; uma hora antes do combinado. Como sempre, tinha chegado cedo.

Até hoje sou alvo de piadas pela minha chatice com horários. Quem me conhece atualmente não sabe o quão pior eu era naquela época. Uma pessoa em especial estava prestes a descobrir isso.

Chegar cedo não era problema. Eu já tinha meu roteiro para matar tempo pronto na cabeça: caminhada até o início da avenida, visita aos boxes que vendiam jogos, passagem pela principal banca da cidade e, enfim, caminhada de volta até o cinema. E assim o fiz.

Passei pelas populares galerias na rua Marcílio Dias, onde observei os jogos piratas vendidos em todos os boxes. Adorava olhar as pastas com capas dos lançamentos enquanto escutava outras pessoas falando sobre jogos.

Mais uma olhada no relógio: hora de iniciar o caminho de volta. Andei até a banca Estátua, no coração da Praça Independência – um local conhecido por todo santista. A banca Estátua era famosa por ser uma das únicas a ter variedade de conteúdos nerds em tempos em que isso ainda não era cool e descolado. Foi nessa banca que comprei parte da minha coleção de cartas de Magic e, claro, revistas de videogame. E era esse o motivo que estava ali.

estatua

As revistas de videogame sempre habitaram uma área específica das bancas, geralmente escondidas em um canto. Mas meus olhos já estavam treinados para identificar os logos no canto superior esquerdo das capas coloridas. Em poucos segundos estava com a revista desejada em mãos: a edição do mês da Nintendo World.

Tirei o dinheiro da carteira – outro costume antigo, não usava cartão – e paguei no caixa. Antes de sair, agarrei uma sacola. Já do lado de fora, encostei no ponto de ônibus próximo e foliei a revista. Passei rápido pelas primeiras páginas até encontrar meu nome em uma das matérias. Fazia menos de um ano que começara a escrever na Nintendo World, me enchia de orgulho ver impresso meu nome naquelas páginas que lia desde pequeno.

Enquanto relia o texto que havia escrito há pouco mais de um mês na minha seção sobre Pokémon, percebi que estava na hora de seguir caminho. Brigando com a mão enfaixada, guardei a revista na sacola e coloquei a carteira ­– que na emoção ainda segurava na mão – no bolso.

Andei até o cinema fazendo a tradicional checagem de pertences a cada minuto; a mão esquerda batia no bolso esquerdo da calça: celular, check. No bolso direito da calça: chaves, check. No bolso de trás da calça: carteira, check. E, por fim, uma passada mais longa para sentir o impacto do Nintendo DS no bolso da perna (lembra quando eles existiam?). Estava tudo pronto.

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Na entrada do cinema encontrei a Nathalia, que era da minha turma da faculdade de jornalismo e uma das minhas melhores amigas. O namorado dela na época, no entanto, eu não conhecia. Era um cara alto com um sorriso aberto, simpático, mas diferente dos amigos que eu costumava ter. Ele não parecia nerd. “Nunca vou ser amigo desse cara”, pensei anos antes dele se tornar meu sócio e um dos meus melhores amigos. Me cumprimentaram e ficamos ali por um tempo. Esperávamos alguém.

Enquanto contava para o tal de Guilherme como havia quebrado o dedo, percebia que estava suando mais parado que quando andava sob o Sol. Nervoso, fazia a checagem repetitivamente.

Mão esquerda, bolso direito. Check.
Mão direita, bolso de trás. Check.
Chaves, carteira.
Pequeno chute no ar, senti Nintendo DS bater na perna. Check.

Ela chegou.
Check.

Não conhecia aquela garota, mas ela era o motivo pelo qual eu estava ali. Não entendi nenhuma das 25 palavras que ela disse em uma velocidade ainda maior que minhas passadas entre os cinco segundos em que chegou e nos cumprimentou.

Um garoto com a mão enfaixada, segurando uma revista de videogame, com um DS no bolso e que não parava de falar durante o filme não é tudo que você imaginou para seu primeiro encontro?

Enquanto ela correu para comprar os ingressos e ir ao banheiro, recebi olhares marotos da Nathalia e Guilherme. Esperavam algum tipo de aprovação, afinal de contas, ambos tinham planejado e organizado o encontro dos respectivos amigos solteiros.

A garota voltou apressada enquanto continuava falando sem parar. E apesar de não saber exatamente como pronunciar corretamente seu nome, eu já tinha aprendido algumas coisas sobre ela. E ela possivelmente aprendeu muito mais sobre mim.

Cobri o rosto durante quase todo o filme escolhido, O Nevoeiro. Tinha (e ainda tenho) pavor de filmes de suspense. Na tentativa de esconder o nervosismo, puxava assuntos sobre as cenas que apareciam no telão. Uma das coisas que gostaria de saber sobre a garota naquele momento era o quanto ela odiava quem falava durante os filmes.

Um garoto com a mão enfaixada, segurando uma revista de videogame, com um DS no bolso e que não parava de falar durante o filme não é tudo que você imaginou para seu primeiro encontro?

O que viria a seguir, infelizmente, não me ajudaria. A indicação de jantar do casal que organizou o date: um restaurante japonês.

Restaurantes-Japoneses-Jundia-

Nunca consegui escovar os dentes usando a mão esquerda, imagine minha performance com os hashis no meu primeiro contato com a culinária oriental. Já que não sabia o que e como comer, copiei tudo que a garota do nome que não me arriscava a pronunciar pedia. Estava jogando seguro.

Quando ela percebeu (ou pelo menos deixou claro a existência) a revista de videogames que eu segurava o tempo inteiro, me contou que seu jogo favorito era Chrono Trigger – fato que talvez ela se arrependa até hoje, já que a surpreendente informação desencadeou uma sequência inacabável de papos sobre games.

Foi quando cometi o erro fatal daquele encontro: mão esquerda, bolso da perna da calça. Puxei o Nintendo DS.

Se somente o fato de abrir o videogame durante um primeiro encontro não fosse estranho o suficiente, que tal se o papel de parede da tela fosse a foto da ex-namorada?

Após a despedida, inicie meu caminho de volta até o ponto de ônibus. Aquele dia algo diferente aconteceu. Passei todo o trajeto de volta com minha revista de videogame na sacola e o console portátil no bolso. Intocados. Minha cabeça só conseguia rebobinar todos os momentos que eu acabara de viver, com um sorriso enorme no rosto.

Não tinha sido um passeio comum. Esse foi o dia em que mostrei a Nintendo World e minha paixão por videogames para a pessoa que viria a se tornar a mais importante da minha vida – e que pra minha sorte deu mais algumas chances pro garoto esquisito que chegava horas antes dos horários marcados.

Ainda bem que sempre tinha um videogame no bolso.

Ainda bem que, desde então, sempre tenho você no coração, Aretha.

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2 comentários sobre “O primeiro encontro

  1. Pingback: É isso – GoLuck

  2. Isabel Maria Ferreira Anastácio

    O início de uma história de amor linda! Há sempre uma razão para que os caminhos das pessoas se “cruzem”. A vida é aquilo que fazemos dela. As nossas escolhas, são parte das nossas histórias de vida. Por isso, e por tudo o que escreveste, o vosso encontro, mesmo que planeado, resultou numa bela relação de amor e já deu fruto! Estava escrito… Parabéns e toda a felicidade do mundo Lucas e Aretha. E, pensem sempre nesta frase de que gosto muito: ” A Teu Lado, Encontrei a Maior Razão de Viver”. Sejam Felizes

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