É isso

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Foi muito legal. Fazia tempo que não dedicava parte do meu dia para escrever – algo que há alguns anos era minha principal rotina.

Quando resolvi passar mais tempo fazendo do que planejando, acabou saindo, de forma espontânea, todos os registros publicados aqui no blog nesses últimos 10 dias. Foram histórias que resgatei do fundo das caixas de e-mail e principalmente de algumas das minhas lembranças mais marcantes. 

A volta de quem foi
O dia que Watch Dogs vazou no Brasil
O e-mail e o texto que garantiram meu primeiro emprego
A janela
O que nos uniu
GoLuckast: a desculpa perfeita para ver os amigos. E comer esfihas.
O sonho que nunca alcancei
O primeiro encontro

Foi nesse blog que testei, desenvolvi e aprimorei diversas habilidades profissionais básicas. Mas, principalmente, foi por meio dele que conheci pessoas incríveis que hoje fazem parte da Gomídia e da minha vida.

Dessa forma, encerro o breve período de atividade do GoLuck. Ainda existem algumas histórias que quero contar, mas essas ficam para depois.

Agradeço todos que leram, comentaram ou vieram conversar comigo sobre os textos. Se alguma dessas histórias te fez lembrar de bons momentos, a missão foi cumprida.

Não é Game Over, apenas um checkpoint até a próxima oportunidade.

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Marcos Diniz, Eu, Wagner Araújo e Camilo Bogado, alguns dos membros do GoLuck durante o período de atividade entre 2007 e 2010.

O sonho que nunca alcancei

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Sempre tive facilidade para falar em público. Na escola era orador das turmas, apresentava os trabalhos e, claro, recebia inúmeras reclamações dos professores por falar demais. Me achava extrovertido – ou pelo menos aceitava a etiqueta que me davam.

Por muito tempo me dediquei ao ofício de aparecer na frente das câmeras. Em determinado momento, acreditei esse seria meu futuro profissional. No sonho mais distante, queria levar os jogos para a MTV. Por que não? Era a maior referência jovem em uma era onde a internet ainda engatinhava.

Como contei nesse outro texto, sempre tive dificuldade em admitir minhas fraquezas. E essa não é exatamente uma história de sucesso, mas sim como aprendi com um fracasso pessoal.

Enquanto estava convencido que aparecer na frente da câmera era minha principal virtude, ignorei tudo que acontecia em volta

Após cobrir a EGS 2005 pelo Santa Games, iniciei minha jornada com o microfone em mãos. As primeiras oportunidades, no entanto, não eram exatamente as que imaginava. Toda semana ia até uma loja gravar propaganda dos novos jogos e videogames, ao bom estilo shoptime. Repeti muito o discurso consoles destravados para rodar seus backups.

Fazer merchandising era distante do sonho de ser VJ, mas me ajudaram a criar mais intimidade com uma produção audiovisual. Até que veio o grande projeto que seria meu passaporte para o desejado objetivo. Ou assim acreditava.

Em novembro de 2006, junto com outros colaboradores do site Wii Brasil, criei o WiiTV – o primeiro programa de games no Brasil produzido do zero para a internet.

Sem falsa modéstia, o WiiTV era um projeto muito a frente do seu tempo. Um programa semanal produzido por uma equipe de entusiastas em um processo que emulava uma produção profissional.

Esse vídeo abaixo, publicado no episódio 4 da segunda temporada, mostra os bastidores da produção. É uma mistura de nostalgia e vergonha alheia, mas exemplifica exatamente como era produzir vídeos há 10 anos sem ter nenhum conhecimento ou equipamento apropriados.

Numa conversa recente com o Ivan “Soul Zonik” Nikolai, um dos responsáveis pelo Wii Brasil e também do WiiTV, ele me contou como enxergava o projeto. “Tinha orgulho do WiiTV pois era um campo praticamente inexplorado na internet. Atualmente você encontra milhares de YouTubers com proposta similar, mas há quase uma década isso era inexistente”.

O WiiTV teve 24 episódios publicados e alcançou uma audiência muito relevante. Mas, principalmente, foi meu cartão de visitas.

Na época, não tive dúvidas que alcançaria o sonho.

Incluía produção de vídeos em todo projeto que eu participava. Foi assim que consegui o emprego na Saga, escola de computação gráfica, após indicação do amigo Ricardo Farah. Foi na frente da câmera que convenci a Ubisoft Brasil a investir em produção de vídeos; hoje uma das principais iniciativas de sucesso da empresa no Brasil.

Mas alguma coisa não estava dando certo.

Por mais que eu achasse que apresentar era meu diferencial, minha carreira insistia em me afastar das câmeras.

O mais perto que passei da MTV foi em 2012, quando troquei e-mails com Ricardo Anderáos, na época Diretor de Mídias Digitais da emissora. O contato veio por meio da minha participação no Curso Abril de Jornalismo, no ano anterior. Na época, Anderáos demonstrou bastante interesse em projetos de games para o portal da MTV. Como costumava fazer, mostrei segurança e tentei convencê-lo que seria uma boa ideia investir em games. Tinha o projeto pronto, redigido em um documento no Word salvo como “games na mtv.doc“. Ofereci até mesmo vender cotas de patrocínio. Não tinha como dar errado. Mas deu.

Nunca tive uma epifania que deixasse claro o fracasso do meu plano original. Foi um desmame doloroso, que passou por algumas recaídas. Falhei em levar o projeto de games para a MTV – vendida tempos depois.

Enquanto estava convencido que aparecer na frente da câmera era minha principal virtude, ignorei tudo que acontecia em volta.

O WiiTV me ensinou a gerenciar projetos, lidar com equipe e a criar conteúdo para uma comunidade. As inúmeras entrevistas que gravei enquanto apresentei os programas na TV Saga me deram confiança no discurso, pensamento rápido e melhor desenvolvimento na linha de raciocínio. Convencer a Ubisoft a investir em vídeos, nada mais era, que uma evolução da minha capacidade de vender uma ideia.

Quando percebi, figurava do outro lado da câmera – algo que nunca planejei. Estava tão míope que, mesmo quando abri uma produtora de vídeos dentro da minha empresa, não enxergava que o sonho mudara.

Hoje, enxergo o que aprendi enquanto perseguia a antiga ambição. Reconheço como algumas decepções foram importante para que eu me motivasse a ter novos objetivos. Quero, por meio da Gomídiadar oportunidade para que outras pessoas possam ir atrás dos seus sonhos – e aprender com os inevitáveis fracassos no caminho até que esses sonhos mudem para algo melhor. Sempre melhor.

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GoLuckast: a desculpa para ver os amigos. E comer esfihas.

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Um celular plugado em um fone de ouvido minuciosamente pendurado no bocal da lâmpada. Em volta do microfone, como escoteiros em torno da fogueira, quatro amigos se reuniam semanalmente para conversar sobre videogames. E comer esfihas.

O primeiro GoLuckast, podcast do GoLuck, estreou no dia 25 de novembro de 2007 – mesmo mês em que eu havia começado a colaborar para a revista EGM Brasil. Com quase um ano de blog, achei que ter um podcast seria a oportunidade perfeita para continuar avançando nos meus planos de ser cada vez mais relevante no mercado editorial games.

No fim, o legado desse podcast foi muito maior do que eu jamais poderia imaginar.

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Antes, nos reuníamos para jogar Magic The Gathering ou Dugeons & Dragons. Mas foi com o blog – e principalmente com o podcast – que eu me aproximei deles. Foram noites durante a semana em que tínhamos a desculpa perfeita para nos encontrar.

O blog e nossa amizade cresceram muito em torno desses encontros. Wagner Araújo, Camilo Bogado, Eduardo Argañaraz e eu gravamos um total de 64 episódios do podcast. Houveram ocasiões especiais, geralmente no meu aniversário, onde outros amigos participavam das gravações, como Claudio Prandoni, Fernando Muccioli e o Marcos Diniz.

Hoje, quase todos eles trabalham ou já trabalharam comigo na Gomídia. Esse blog foi responsável direto não somente pelas maiores amizades que construí, mas também pela nossa preparação profissional.

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O fim do podcast, por volta de 2009, aconteceu pela necessidade de cada um em seguir seu caminho. Nos mudamos e, consequentemente, não conseguimos mais nos encontrar para gravar.

Mas a amizade que o videogame constrói a distância não destrói.

Continuamos nos encontrando para conversar, jogar videogame, RPG, boardgame e até mesmo, para agradar o Wagner, campeonatos de Magic.

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Para celebrar essas duas semanas de atividade no blog, achei prudente gravar mais um episódio. Fizemos questão que o GoLuckast #65 tivesse a mesma alma dos originais. Por isso convidei Wagner, Camilo e Dudu para o estúdio original do podcast; a casa da minha mãe. Tínhamos esfihas e estávamos reunidos em volta do celular (infelizmente sem o fio pendurado no teto, dessa vez) para falar sobre os jogos que jogamos, mas não tivemos a oportunidade de falar durante esses últimos 8 anos.

Não queria que o novo episódio parecesse uma reformulação do que fazíamos. A ideia é que ele tenha a qualidade de som limitada, dinâmica e, principalmente, objetivo de todos os demais GoLuckasts: ser a desculpa ideal para nos reunirmos.

Com vocês, o GoLuckast #65.

O que nos uniu

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Eu odeio jogo!” Quem conhece minha mãe sabe como ela gosta de deixar isso claro. E a lista dela não tem restrições, vale tudo; baralho, par ou impar e, claro, videogames.

Nunca descobri o real motivo para a implicância – que as vezes suspeito que seja somente isso, uma implicância, ainda mais conhecendo minha genética. Quem me conhece também sabe o quanto eu sou implicante quando coloco alguma coisa na cabeça.

E algo que eu sempre tive na cabeça é minha paixão por videogames. Meu primeiro contato com eles foi quando o irmão mais novo da minha mãe, meu tio Ricardo, tinha um Atari 2600 – o qual ele passava mais tempo tentando conectar na TV do que jogando. Mas quando o cabo funcionava, eu podia ver e jogar River Raid, Enduro e Keystone Kapers – meu favorito, o jogo de polícia e ladrão. Meu tio costumava guardar as fitas do Atari em uma gaveta no quarto, a qual tenho lembranças de ser como um baú escondido em um labirinto. Me aventurava pelo guarda-roupa procurando o tesouro, mas nunca encontrara.

Por fazer parte de uma família que sempre se uniu em qualquer ocasião, frequentava muito a casa de tias e tios. Tinha uma, no entanto, que era minha favorita. Quando entrava ano Chevette da minha avó e escutava “estamos indo na casa da tia Angelina”, eu arregalava os olhos. Sabia que o passeio seria bom.

A Tia Angelina é irmã mais nova da minha avó e tem dois filhos na mesma idade que meu tio Ricardo. Na época, por serem crianças mais velhas, eles tinham acesso aos brinquedos que eu nunca tinha visto. E na casa da Tia Angelina, em um dos quartos, ficava guardado o motivo da minha ansiedade para a visita: o Mega Drive.

Acompanhava, hipnotizado, o personagem azul correndo pela tela. Na sala, a família conversava, comia. Eu ficava em pé ao lado da porta do quarto escuro olhando para a TV, na esperança de alguém perceber o que eu queria. E não era difícil. Meus primos sempre me deixaram jogar o Mega Drive, por isso sabia que lá era um destino certo para minha diversão favorita. Consequentemente, chorava toda vez que minha mãe dizia que o aniversário que estávamos indo não era na casa da Tia Angelina. Por que todos não podiam ser lá?!

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O meu primeiro videogame foi um Nintendinho, que ganhei da escola. Ou pelo menos foi isso que acreditei na época. Hoje, adulto, descobri que não há mágica. Os pais compravam os presentes que eram entregues no Natal. Por anos creditei meu primeiro videogame a um homem de barba branca, mas na verdade tinha sido presente da pessoa que não suportava jogos.

Minha mãe sempre tentou controlar meu tempo em frente ao videogame, por motivos óbvios. Eu poderia passar o dia inteiro ali. Para garantir minhas horas de jogo, no entanto, eu precisava de uma combinação de fatores importantes; notas acima de 8 em todas as disciplinas na escola e tirar o pó dos móveis nas faxinas de Sábado. Não tenho a menor dúvida que minha principal motivação para ter boas notas era o medo de perder o acesso ao videogame.

Mas eu nunca fui uma criança muito fácil. E aprendi a duras penas o quão difícil era ficar sem meu passatempo favorito. Certa vez, após algum episódio de desobediência do qual não me lembro –– mas possivelmente ligado com minha já presente implicância – minha mãe decretou: um mês sem videogame.

Dizem que carregamos poucas lembranças contínuas da infância, mas essa é a memória mais concreta que tenho.

O videogame, na época, era dividido com meu tio Ricardo, que morava na casa da frente com minha avó. Então minha mãe tinha uma crise para gerenciar: meu tio não estava de castigo e, logo, tinha acesso livre ao videogame. Quando ele vinha em casa para jogar, eu precisava sair. Era desesperadora a sensação de saber que o videogame estava ligado, a metros de mim, mas não podia jogar.

Coração mole que é, minha mãe abriu uma concessão no castigo e me deixava assistir – mas apenas da janela da sala, do lado de fora. E lá ficava eu, agarrado na grade, de olhar fixo no videogame.

Aprendi algo muito importante com esse castigo e, para desespero da minha mãe, não foi se comportar melhor. Daquele dia em diante eu não falava mais que videogame era minha atividade favorita. Dizia como gostava de andar de bicicleta, brincar com bonecos, ou qualquer outro passatempo. Quando, inevitavelmente, me comportava mal, o alvo do castigo não era mais o videogame.

Gênio.

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Eu precisava ser engenhoso para proteger meu privilégio de jogar o Super Nintendo, afinal de contas não foi fácil conquistá-lo. Minha família materna é toda Portuguesa, como você pode suspeitar pelo meu sobrenome. Com seis anos viajei com minha mãe para Portugal. Como toda responsável por um pequeno furacão, ela tentou encontrar uma forma de me manter sob controle. E propôs um acordo.

Toda vez que eu me comportasse bem, ganharia pontos. Quando fizesse algo que a contrariasse, perderia pontos. No final da viagem, dependendo da quantidade de pontos que eu tivesse, poderia escolher entre alguns prêmios – sendo o maior deles o desejado Super Nintendo.

Ironicamente, a pessoa que mais tinha aversão a jogos no mundo acabara de gamificar a viagem.

Como meu comportamento nunca foi exemplar, as chances de não garantir os pontos suficientes eram altíssimas. No meio da viagem já estava me conformando com uma recompensa mais baixa, festa com palhaços. Até uma intervenção divina.

Em um dos diversos passeios diários, nos levaram até uma igreja. Ao chegar, observei um senhor que retirou o chapéu antes de entrar. Eu estava de boné, copiei o gesto. No mesmo momento minha mãe viu o ato e, com um sorriso enorme, me recompensou com pontos positivos.

Naquele momento eu tive a certeza que o Super Nintendo já estava garantido; você imagina quantas igrejas nós visitamos até o final da viagem?! Não esqueci de usar boné um dia sequer.

Ironicamente, a pessoa que mais tinha aversão a jogos no mundo acabara de gamificar a viagem.

Por ser filho único e de uma geração intermediária na minha família, encontrei no videogame um parceiro para todas as tardes que passava sozinho. Minha mãe sempre trabalhou fora, nunca foi fácil ser mãe solo. O videogame, então, foi meu companheiro por muitos anos, mesmo com o desgosto dela.

Sempre soube que minha mãe não gostava que eu dedicasse meu tempo somente para os jogos. O que eu não sabia, na época, é o quanto ela reconhecia a importância que os videogames tinham pra mim.

Mesmo deixando clara sua aversão, minha mãe nunca foi contra nenhuma decisão que tomei envolvendo minha identificação com os jogos. Nem quando troquei um estágio em uma multinacional por uma aventura em São Paulo para escrever em revistas de joguinhos. Nem quando pedi demissão de um emprego cheio de estabilidade para abrir meu próprio negócio – sem mesmo conseguir garantir que poderia me ajudar caso desse errado.

Ela me levava na casa da Tia Angelina porque sabia que eu lá eu poderia jogar o videogame que ela ainda não podia comprar.

No Natal da escola, ela escolheu dar um videogame e não um autorama, opção que também tinha sido oferecida aos pais.

Ela me dava pontos extras na viagem porque queria me dar um Super Nintendo.

Ela tirava minha bicicleta nos castigos porque sabia que me deixava triste ficar sem o videogame.

Como em um plot twist digno de Game of Thrones, descobri que a paixão que sempre tive por videogames foi secretamente apoiada por ela.

Quanto amor é preciso para vencer sua implicância? Um amor como o da minha mãe.

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A janela

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Meus pais se separaram quando eu tinha 7 anos. Todo filho de pais divorciados sabe o que isso significa: ter duas casas.

Por muito anos vivi em dois universos completamente diferentes. Durante a semana morava com minha mãe em um bairro de classe média, e aos finais de semana visitava meu pai em o que, hoje, nós educadamente chamamos de comunidade.

Essa não é uma das histórias de cresci na favela, aprendi nas ruas. Até porque o ambiente sempre me trouxe estranhamento. Tudo era diferente do que eu estava acostumado; as pessoas, as interações, as rotinas, as preocupações, as prioridades. Uma coisa, no entanto, era a intersecção que conectava aquele mundo: videogames.

Meu pai me deu um PlayStation quando eu não tinha por volta de 10 anos. Em respeito ao autor do presente, decidi deixar o videogame na casa dele. Imagine uma criança ansiosa que precisava esperava a semana inteira para jogar. O Super Nintendo da casa da minha mãe não conseguia reproduzir os gráficos incríveis que eu via nas revistas de videogames que comprava com a mesada de R$10.

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Era quase um ritual; acordava 7 da manhã, ia para o ponto de ônibus e em 20 minutos estava ao pé do morro. Subia a ladeira de cimento na maior velocidade que minhas pernas aguentavam. Um garoto branco, de tênis, subindo o morro todo sábado de manhã nunca passou desapercebido. Ainda mais quando carregava um porta CD repleto de aquisições frescas do camelódromo do centro da cidade.

Meu pai morava com minha falecida vó paterna, em uma casa de alvenaria com piso vermelhão, uma tendência em um lugar onde azulejo era objeto de ostentação. Como meu pai sempre trabalhou de turnos – muitas vezes noturnos – quando eu chegava ele estava dormindo ou se preparando para sair. Batia na janela de madeira na lateral da casa. Três toques e esperava. O silêncio era quebrado pela movimentação dele até a porta. Abria-se o portal para o momento mais esperado da semana. Mas não antes de outro ritual.

Certa vez, talvez até pelo cansaço da jornada noturna, meu pai reclamou quando liguei o videogame minutos depois que tinha chegado. O PlayStation ficava no quarto dele – um puxadinho da antiga sala da minha vó. “Você vem aqui pra me ver ou só pra jogar?”, ele disse irritado antes de voltar a dormir.

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Hoje, pai, entendo a reclamação. Por isso um dia talvez compreenda se o Benjamin (meu filho) faça como eu e fique 30 minutos sentado em silêncio enquanto durmo esperando o tempo adequado para ligar o videogame.

Era o que eu fazia. Toda vez. Eram momentos de silêncio, olhando para o videogame, lembrando de todos os jogos que tinha visto nas revistas, abrindo silenciosamente o porta CD e imaginando quais jogaria primeiro.

Essa rotina só mudou quando, em uma das escaladas matinais de sábado, alguns garotos me abordaram. Era um grupo de quatro, alguns descalços, outros de chinelo de dedo. Camisas de vereador em cima do ombro. Não lembrava daqueles rostos, apesar de não serem tão desconhecidos.

– Ei, isso aí é fita (sic) de videogame? Você gosta de jogar é?
No momento, não tive nenhuma dúvida do que estava acontecendo. Abri o maior sorriso que conseguia dar e respondi:
– Eu adoro jogar!

Acabara de fazer algumas das amizades mais marcantes da minha infância.

Todas as crianças sabiam; quando a janela estava aberta, o videogame estava ligado.

O primeiro mito que se quebra ao conhecer bairros mais carentes é que as pessoas que vivem lá não têm lazer. Na verdade, eles vivem do lazer. Churrascos, festas, conversas na cadeira de plástico na porta de casa, futebol, tudo era motivo para celebrações. Entre as crianças o videogame era unânime. Nem todos podiam ter, é verdade, mas todos conheciam alguém que tinha. E foi assim que eu conheci o Thiago.

O Thiago morava umas cinco casas do meu pai. Assim como eu, andava sempre com seu porta CD embaixo do braço – jogos de um videogame que ele sequer tinha. Na ansiedade de ganhar o desejado presente de aniversário, ele já colecionava os jogos que também conhecia pelas revistas e indicações dos vendedores do camelô.

A identificação foi imediata.

Fiquei amigo do Thiago de tanto me irritar com o fato dele não querer emprestar nenhum jogo. “Eu quero ser o primeiro a jogar”, ele sempre dizia. Mesmo sem admitir, eu teria feito o mesmo.

Quando Thiago finalmente ganhou seu PlayStation, nos aproximamos ainda mais. A janela do quarto dele dava direto para a rua. Todas as crianças sabiam; quando a janela estava aberta, o videogame estava ligado.

Era um acontecimento; diversas crianças apoiadas do lado de fora da janela do Thiago. Eles se espremiam, revezavam o pequeno espaço para ver a mágica vindo da TV de tubo. Eu levava meu controle e garantia meu acesso VIP, sentado na cama debaixo do beliche do quarto com pouco mais de cinco metros quadrados.

O videogame foi meu passaporte para um mundo que eu não fazia parte

A plateia não só assistia, mas participava. No tradicional “quem perde passa o controle”, o curto fio do antecessor do DualShock se esticava até a janela. Não consigo calcular quantas horas passei ali, mas lembro bem dos olhares e sorrisos que o videogame proporcionou.

O momento mais marcante foi a missão para conseguir Metal Gear Solid, jogo que era um mito entre as crianças. Thiago disse que um conhecido já estava no segundo CD e poderia emprestar o primeiro.

– Ele mora longe? – perguntei ansioso.
– Logo ali – Thiago respondeu, já sabendo que eu não toparia a aventura se ele contasse a verdade. Afinal de contas, eu era o moleque branco de tênis que não morava ali.

Caminhamos por mais de 30 minutos. A alvenaria aos poucos foi dando lugar a madeira. As ruas viraram guetos, o asfalto se tornou terra e os sorrisos já não eram tão convidativos.

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A jornada para o empréstimo de Metal Gear Solid foi, para mim, tão marcante quanto o próprio jogo, que devoramos de uma forma sem igual. A plateia da janela opinava e vibrava a cada nova descoberta e avanço. Imagine o desafio de descobrir que era preciso ligar para Maryl sem internet nem a caixa oficial do jogo?

Convivi com os mesmos garotos do bairro por muitos anos, mesmo após meu PlayStation ter se mudado para a casa da minha mãe. O videogame foi meu passaporte para um mundo que eu não fazia parte, mesmo estando ali todos os finais de semana.

Não existiam diferenças quando estávamos, juntos, compartilhando o controle na janela do quarto do Thiago.

A volta de quem foi

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Star Fox 2 será lançado após 22 anos de ter sido cancelado. O jogo estava 90% pronto, mas a Nintendo decidiu puxar a tomada do projeto quando os novos garotos com seus incríveis gráficos 3D 32-Bit chegaram na rua.

A aventura inédita de Fox McCloud aterrissará em um mundo muito diferente do que estava planejado originalmente. Ele não será capaz de competir com os 6 teraflops do Xbox One X. Ele não usa Unreal 4, Frostbite, Snowdrop ou qualquer outro motor gráfico de última geração.

Star Fox 2 não estava na velocidade do amanhã de 1995

O que faz Star Fox 2 especial, mesmo tantos anos após sua era?

Viver preso no futuro do presente gera uma ansiedade por falsas necessidades. Mais, maior, melhor. O passado não é uma opção quando sempre se está atrasado para o que ainda há de melhor.

É impossível voar mais rápido que a luz. Star Fox 2 não estava na velocidade do amanhã de 1995. Em 2017, ele voa baixo.

Tudo que foi desenvolvido desde 1995 – inclusive os incríveis concorrentes poligonais lançados no PlayStation e Saturn – ajudaram a evolução dos jogos até aqui. Se alguns não tiveram impacto direto no mercado, com certeza ajudaram as pessoas envolvidas  a evoluir.

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Um projeto cancelado é muito mais que o ponto final. Trata-se da jornada, não? A escalada de uma montanha possui vários finais. A chegada ao cume, inclusive, pode ser apenas o começo da próxima subida.

Se Star Fox 2 nunca fosse lançado, os aprendizados seriam os mesmos. Mas quem diz que não é possível aprender um pouco quando ele voltar do hiato? Talvez você não mude. Talvez eu mude. Talvez possamos mudar juntos.

GoLuck fora do ar. Por que?

Olá. Quanta teia de aranha por aqui, hein?

Esse endereço é especial. Foi aqui que o GoLuck começou, uma brincadeira que se tornou em um dos projetos que tive mais carinho por muitos anos. No final de 2008, mudamos para um endereço próprio com um layout bonitão. O último post desse blog indica exatamente essa mudança.

Se você entrar lá agora, não vai encontrar nada além de uma página estática. E há um ano, quase exato, sou perguntado no MSN, e-mail, Xbox Live, PSN e até mesmo pessoalmente: “quando o GoLuck vai voltar?” Ainda não sei. Eu amo esse blog, e por isso decidi deixar ele fora do ar. Não ia ser justo com você deixar ele desatualizado. Decidi, então, deixar ele descansando.

Nesse meio tempo quanta coisa aconteceu na minha vida… Muito mudou e meu tempo ficou realmente esgotado. Tenho enorme vontade em voltar a escrever e fazer tudo aquilo que tornava o GoLuck um site diferenciado, que conquistava os leitores como amigos. Aliás, todos os membros do GoLuck estão na minha lista de melhores amigos. E tudo começou com uma brincadeira.

Queria pedir para você, leitor do GoLuck, um pouco mais de paciência. Queremos voltar e vamos fazer isso em 2011. Ano passado foi um ano em que estava terminando meu trabalho de conclusão de curso na Universidade e engajado em alguns novos projetos (que vou apresentar muito em breve para todos vocês).

Quem quiser me acompanhar, pode encontrar muitos textos meus mensalmente nas revistas EGW e Nintendo World. Fica também meu Twitter: @lucas_patricio.

Fique tranquilo. Muito em breve você terá um blog divertido novamente no seu RSS. Terá um podcast gamer para escutar, e muitos vídeos engraçados para compartilhar com sua timeline. O GoLuck volta já.