O e-mail e o texto que garantiram meu primeiro emprego

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Durante uma palestra sobre formação profissional que fiz no colégio onde me formei no Ensino Médio, um dos alunos presentes fez a famosa pergunta: “qual dica pra quem quer começar?” Minha resposta foi o “acredite no que você quer fazer, e corra atrás”.

Clichê, eu sei. Quando falo em voz alta, até soa um pouco ridículo. Mas aí revirando e-mails antigos para pesquisa de um texto que quero escrever pro blog em breve, me deparei com uma imensidão de mensagens que enviei pedindo emprego.

Os alvos eram vários: empresas corporativas, sites, programas de TV, revistas, jornais… Quase todos relacionados a videogames.

Entrei em uma cápsula do tempo que me teletransportou até minha adolescência. Observar o Lucas (ou Luck, como costumava ser chamado na época) reagia e agia me lembrou das motivações, inseguranças e sonhos que tinha na época.

Decidi então, ao decorrer desse breve período ativo do blog, publicar algumas das mensagens que mandei e compartilhar um pouco dos bastidores da minha cabeça. O objetivo é refletir sobre medos, anseios e tentar entender como tudo nos transforma em quem somos hoje.

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EGS 2005: entrevista com Milton Beck, na época, Diretor de Negócios da Microsoft

Vou começar o e-mail que acabou resultando no meu primeiro emprego, no programa de TV Santa Games.

Agosto de 2005, estava zapeando a TV entre as aleatoriedades da programação de Sábado na TV aberta. Após algumas zaps, reconheci imagens de um jogo e, como em um parry perfeito de Street Fighter III, parei no canal assim que identifiquei primeiro frame. Assisti sem piscar.

Segundos após o programa acabar, não tive dúvidas. Corri para o computador e entrei no site do programa. Na seção Contato, redigi o que me veio na cabeça. Não me lembro de ter lido antes de enviar – o que talvez explique algumas atrocidades cometidas contra a ortografia, das quais já me desculpo.

A mensagem que mandei é malcriada, mal escrita e pretensiosa em níveis vergonhosos, mas repleta de verdade. Quase ingênua.

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Algumas considerações:

  • O Santa Games ficou no ar por mais de 10 anos em uma emissora de TV local da região da Baixada Santista, litoral de São Paulo
  • Seria Gamemaníaco o gamer de 2005? Talvez eu já fosse brega. Ou todos nós éramos.
  • “Espero repostas”, porque nada melhor que terminar um e-mail de emprego com uma pequena ameaça, não é mesmo?

Vendo em retrospecto, parece ridículo (e, de fato, até é) eu ter citado que fui moderador de fórum de um site de Magic The Gathering (saudosa Liga Magic). Esse tipo de apoio em experiências em que eu estava envolvido foi um trunfo que usei em quase todas as minhas argumentações seguintes desde então.

E assim você acaba de conhecer algo muito íntimo; sempre levei tudo que fiz a sério. Não como se fossem as coisas mais importantes do mundo, mas como se até mesmo a moderação de um fórum pudesse, de forma ou outra, fazer a diferença. E isso nem sempre é algo bom. Não dar descanso para sua ansiedade é como acelerar o cronômetro regressivo de uma bomba.

A resposta, para minha surpresa, chegou 10 dias depois, quando eu quase já tinha esquecido da investida.

respostaSG copy

Olá Lucas, legal a sua iniciativa..
Claro q existe a possibilidade, afinal toda ajuda é bem-vinda!
Faz assim, mande pra gente uma análise sua, sobre algum game atual!
(mas tem q ser escrita por vc)
O nosso padrão é narrativa, ou seja, o texto que for escrever vai ser narrado! O formato do texto é em segunda e em terceira pessoa ( você, nós ) Começe falando da história do game e depois a análise de gráficos, som, jogabilidade, novidades do game e etc…
Anexe também o seu curriculum, com todos os dados e cursos q já tenha feito e Boa Sorte!
Uma pergunta, conhece sobre dicas de games?
Abraço..

Antes de continuar, uma breve reflexão; quantas mensagens você ignora na sua caixa de entrada? Quantos currículos você não abre? Quantos comentários no seu vídeo de YouTube ficam sem respostas? Quantas menções no seu Twitter não são respondidas porque você não reconhece o @?

Graças a imensa generosidade do Sidnei Starnini – o responsável por essa resposta e diretor do Santa Games por mais de uma década em que o programa ficou no ar – tive uma oportunidade única: ser ouvido e ter uma chance.

Quando li o e-mail, senti algo que hoje aprendi a usar como termômetro da minha intuição. Era uma energia que corria o corpo, uma adrenalina que me fazia pensar em uma velocidade impossível de acompanhar com minha datilografia capenga.

Me atormentou durante muitos anos o fato de não escrever bem como achava que deveria.

O que eu senti quando comecei a escrever o texto é o que sinto até hoje quando acredito em um projeto, participo empolgado de uma reunião ou planejo o próximo passo da Gomídia.

Eu, de alguma forma, sabia que ia dar certo. Porque já tinha dado.

A introdução é bonita, talvez para esconder a simplicidade e fragilidade do que vem pela frente: o texto que eu enviei.

E aqui vai outro aprendizado recente; por muito tempo tive vergonha das minhas fraquezas, defeitos e vulnerabilidades. Me atormentou durante muitos anos o fato de não escrever bem como achava que deveria. Minhas referências, meu vocabulário, minhas técnicas nunca foram suficientes para achar que podia me destacar. Somente anos depois entendi que não era isso que me tornaria especial – e por que diabos alguém precisa ser especial?

Com vocês, minha primeira análise de um jogo na íntegra e – para o desespero de todos os professores de português – sem nenhuma edição.

Análise Batman Begins

O Principe das Trevas aparece no tão esperado game: Batman Begins, que antes mesmo de ser lançado já diziam ser o melhor game da série Batman.

O game traz gráfico detalhadíssimos e um sistema já conhecido por aqueles que já jogaram games no estilo Splinter Cell.

O grande forte do game é você poder realmente utilizar-se da frutividade e da inteligencia nos cenários sombrios do game, podendo optar em fazer um ataque discreto e silencioso ou até mesmo “descer o braço” em todo mundo na fiel Gotham City.

O sistema do game é bem manjado, andar pelas sombras, aplicar golpes frutivamente pelas costas dos inimigos e usar algumas “bugigangas” .

A grande novidade do game é você poder amedrontar os inimigos, isso mesmo, voce pode causar pânico nos inimigos deixando eles paralizados ou faze-los correrem, o que da no game a pitada de obscuridade tambem muito presente no filme.

Batman Begins segue fielmente o filme e mostra cenas do filme durante o game, assim como Star Wars Episode III ,e isso dá uma certa credibilidade pro game, mas como nos ultimos games baseados em filmes, Batman Begins acabou sendo um game muito restrito a ações repetitivas e caminhos únicos.

Apezar dos golpes muito fieis aos do filmes, a ação no meio do game começa a ficar cansativa e os artificios do Principe das Trevas também.

Para quem já jogou games como God of War, esse game deixa a desejar muito na jogabilidade presa e simplificada.

Os extras do game ajudam você a ter animo para tentar passar das fases para liberar entrevistas com a equipe técnica do filme e do game, que são bastante legais para você que manja um pouquinho de inglês.

Se você é fam da série ou gostou do filme, Batman Begins é imperdível, trazendo gráfico e personagens muito bem construidos em ambientes totalmente 3D.

 

O texto não é genial, não tem uma grande sacada ou muito menos bem escrito. Passei anos acreditando que o resultado final era o que realmente importava para a imagem que eu queria passar. No entanto, olho para essa história e percebo que o que me garantiu essa vaga, definitivamente, não foi ter escrito apesar com z ou repetir “game” a cada 5 palavras,

Após mais algumas mensagens trocadas, o Sidnei me chamou para uma entrevista – a qual minha mãe me levou. E, assim, comecei a trabalhar no Santa Games respondendo dicas pedidas pelo site do programa. Eram aproximadamente 30 pedidos por dia, os quais atendia indo até o GameFaqs.com. Em pouco tempo já tinha um banco de dados com mais de 500 dicas traduzidas.

Era a oportunidade que eu precisava. Meses depois, estava indo cobrir o meu primeiro evento como repórter e aparecendo na câmera pela primeira vez – história que contei aqui. Em seguida, virei redator do programa. Jogava enquanto capturava as imagens numa fita cassete, fazia os textos e depois locução. Eram aproximadamente 4 análises por semana para o programa semanal.

Foto sem título
EGS 2005: Eu, Fernanda (apresentadora que fez dupla comigo no evento) e Sidnei Starnini

Se hoje eu tenho o privilégio de trabalhar com o que eu amo, devo muito ao Santa Games e a oportunidade que o Sidnei deu ao meu e-mail.

Não sou especial, não sou genial, não sou diferenciado, não tenho um dom, não surpreendo. Mas no meio de tantas coisas que não sou, me descubro que sou, dia após dia, o que sempre procurei ser. Não sozinho, não sem correr atrás. No fundo, eu sabia que o conselho que dei na palestra, por mais clichê que ainda seja, era como meu e-mail; repleto de verdade.